labirintos e fascínios

Saturno é o deus do tempo e, por conseguinte, da diferenciação e da separação, mas é também o deus do desejo e da nostalgia, isto é, do desejo de regresso à unidade originária. Victor Manuel de Aguiar e Silva, in Camões: Labirintos e Fascínios

domingo, 1 de Novembro de 2009




november rain








A leitura dos poetas teve efeitos mais perturbantes ainda: não tenho a certeza de que a descoberta do amor seja forçosamente mais deliciosa que a da poesia.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

trad. Maria Lamas

imagem da net

terça-feira, 27 de Outubro de 2009



it's all for love
,
L-O-V-E













Em muitas fotografias feio
em muitas outras bonito
muitos enviam-no para o inferno queimar em lume brando
muitos outros amam-no forever e para além de forever.
Um pedófilo! murmura o olhar sinistro do ex-manager Bob Jones
um profeta do tempo moderno! by Elisabete Taylor.

Jackson dança nas praças de todas as cidades.
Algumas, muitas, ou muitas e muitas pessoas
Paris, Austin, Tóquio, Rio flash mobilizados
ontem, hoje, amanhã, agora, há pouco, há meses
youtube, youtube, youtube,

this is it.
This is NOT it!
dizem as followers que pernoitaram diante de 100 N Carolwood Dr, Los Angeles,
ao ver o ídolo, o profeta, o homem muito magro chegar a casa cansado mas sem fome e sem sono.
Uma e trinta da madrugada, vinte e quatro de Junho do ano da graça presente.
Havia de ser hora a hora uma picadela até à estocada final já o dia alto,
o dia seguinte.

E cismo com o ídolo, com o que o ídolo diz, eu sou apenas a fonte
por onde passa a música. Um sufi diz o mesmo e inclina a cabeça rodopiando sempre,
uma mão voltada para o céu outra para a terra, eu sou a fonte por onde Deus comunica com os homens. Miguel de Molinos, o que tu tens a fazer é não fazer nada, não te interponhas entre Deus e a tua alma. Não penses, sente a música e dança, Michael dixit.
E dançou.
Dançaram as chamas da fogueira do Molinos, no tempo santo de seiscentos e noventa e cinco em cima de outros mil já passados depois de Cristo. Em Roma cidade eterna. Inquisição é sempre que um homem quer.

Dançou a vida privada, dançou Neverland, Tom Sneedon dançou em Munique, pela voz do rei da pop ao som de Slash. Tantas vezes que não aguentou e deu um tiro na cabeça , só efeito visual, ainda que vontade não faltasse ao entertainer, the most important in the world.

E o ídolo agora está no cinema.Uma película.Um corpo muito fino a vibrar em todos os sentidos. Acredito nas followers, acredito no santo dinheiro corrompendo valores, dar água a quem tem sede ou morfina a quem não dorme. Santa morfina, trust in me, just in me, put all your trust in me.
Sim, eu creio em tudo. Vou levar um pedacinho do ídolo, guardá-lo ou partilhá-lo com quem comungar do mesmo sacrário.
Não penso. Não faço nada. Rodopio. Michael!



imagem da net

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009



viva viva



























Viva a democracia
Viva a praça da alegria
Viva o pai, viva a mãe e viva este dia
Viva o presidente
Viva toda a gente
Viva o viva dormente
Viva a paula rego
Viva o patego
Viva o fino e viva o prego
Viva vivamos
Vamos dar vivas ao rei
O rei do churrasco, o rei do desconto
O rei do burlo, o rei do pesponto
O rei da democracia da escolha
O rei inchado mesmo sem bolha.



Nota: foto tirada na Casa das Histórias de Paula Rego, Cascais.

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009



cátedra




Não quero falar de política. Daqui, do lugar onde me encontro, vejo uma primavera a nascer no outono. Digo que é uma primavera com muitos espinhos e concordarão, mas os espinhos não são impeditivos de respirar ar puro e a capuchinho vermelho será só uma história para crianças e a pelicana apenas a alcunha da mãe de d. antónio, prior do crato, nosso rei por uns dias, nos idos trágicos de alcácer quibir.

Não quero falar de música. Daqui, do lugar onde me encontro, vejo um circo montado à volta do pai de filhos de outros espermas e de auto - denominados filhos dispostos a testes de ADN para beliscar a herança física, monetária e artística do ídolo de triste figura, michael mumificado e maquilhado, dentro de um caixão banhado a ouro no sossego eterno do forest lawn memorial de glendale e nosso rei peter pan forever.

Não quero falar de férias. Daqui, do lugar onde me encontro, vejo uma franja de mar a rumorejar palavrinhas salgadas. Vem vem, diz ele, sabendo que já estou longe e que o confundi com o mar da irlanda durante uns dias, onde de facto vivi tomada pelo ímpeto criativo de ulisses, aliás bloom dedalus, aliás joyce, confirmando o que se sabe, porque como s. tomé quis ler para crer. Ulisses, rei de ítaca nossa de cada dia.


quinta-feira, 6 de Agosto de 2009




LES LAURIERS SONT COUPÉS


Un soir de soleil couchant, d'air lointain, de cieux profonds; et des
foules qui confuses vont; des bruits, des ombres, des multitudes; des
espaces infiniment en l'oubli d'heures étendus; un vague soir...

Car sous le chaos des apparences, parmi les durées et les sites, dans
l'illusoire des choses qui s'engendrent et qui s'enfantent, et en la
source éternelle des causes, un avec les autres, un comme avec les
autres, distinct des autres, semblable aux autres, apparaissant un le
même et un de plus, un de tous donc surgissant, et entrant à ce qui
est, et de l'infini des possibles existences, je surgis; et voici
que pointe le temps et que pointe le lieu; c'est l'aujourd'hui; c'est
l'ici; l'heure qui sonne; et au long de moi, la vie; je me lève le
triste amoureux du mystère génital; en moi s'oppose à moi l'advenant
de frêle corps et de fuyante pensée; et me naît le toujours vécu rêve
de l'épars en visions multiples et désespéré désir... Voici l'heure,
le lieu, un soir d'avril, Paris, un soir clair de soleil couchant, les
monotones bruits, les maisons blanches, les feuillages d'ombres; le
soir plus doux, et une joie d'être quelqu'un, d'aller; les rues et les
multitudes, et dans l'air très lointainement étendu, le ciel; Paris à
l'entour chante, et, dans la brume des formes aperçues, mollement il
encadre l'idée; soir d'aujourd'hui, oh soir d'ici; là je suis.



Leio na nota do tradutor que Édouard Dujardin teria sido o primeiro utilizador do monólogo interior (directo e indirecto, associado com a descrição omnisciente e com o solilóquio) na sua obra Les lauriers sont coupés,obra que, ainda de acordo com o tradutor, James Joyce conhecia perfeitamente.


Agosto será Ulisses


segunda-feira, 27 de Julho de 2009




flash mob





Eu sou a da direita, de t-shirt branca e chapéu azul com florzinhas, e estive nesta praça, na estação, nas ruas, em qualquer lugar de Estocolmo onde se pudesse dançar beat it. Se não acreditarem não levo a mal.

terça-feira, 21 de Julho de 2009



Q
uis, juro, escrever sobre michael jackson
. Não consegui. Tornei-me fã póstuma e fiz o que faz uma admiradora: colecciona. Coleccionei horas de directos em holmby hills, entrei indiscretamente na mansão; passeei nas amplas divisões decoradas ao gosto do astro – pouco importa se sofisticado ou kitsch; vi e ouvi a ambulância que saía em marcha atrás pelo pórtico principal, levando o corpo do auto-proclamado rei para o hospital ronald reagan onde chegaria sem vida. Eram duas e vinte e seis da tarde, hora indigna para morrer.

Eis-me a peregrinar pelo passado dos jackson five. Eu nasci no mesmo ano. Se tivéssemos brincado juntos talvez chorássemos a perda de presley ou de norma jean, ou nos abismássemos diante do primeiro passo na lua, antes de michael se fartar de a oferecer em dança aos súbditos que o seguiam, perseguiam e abafavam, e a quem ele saudava com a entrega de um beijo nos dedos, um v de vitória ou um repetitivo I love you too.

Não estranhem esta proximidade abusiva, ele é americano e a música de que eu mais gostava então era maria, lembram-se?, o nome na moda em portugal actualmente. Mas não só por isso. Um ídolo americano é um ídolo universal e ninguém fica imune a um ídolo assim, nem que seja para lhe apontar os pés de barro. E apontaram.

Fui a neverland no google, figueroa road, los olivos, santa bárbara; vi a entrevista de bashir nos diferentes cenários: neverland, las vegas e florida; imaginei o rosto dos filhos antes da cerimónia fúnebre; não sabia o que pensar daquilo no staples center. Lembrei-me que no livro que ando a ler, debaixo do vulcão, de malcolm lowry, passado no méxico, as pessoas cantam e dançam nos funerais e que por esse prisma não tenho nada que achar, é assim, pronto; mas ele estaria ali? Ainda não acredito.

Agora as músicas, as que mais me agradam, ouvidas à exaustão, graças ao youtube; as entrevistas, os casos polémicos, o apogeu e a decadência, o ser humano, demasiado humano e no entanto...

nota: neste relato a objectividade deixou-se levar pela mão da afectividade.




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