
falésias e falácias
Retomei Agustina agora que o tempo arrefeceu e a espera me permite os autores alinhados na estante desde a última Feira do Livro. A Corte do Norte é um romance com um cenário insular mas perfeitamente enquadrado no ambiente feminino e continental em que a escritora telúrica se move. Plasticamente, a narrativa compõe-se de um extenso painel de gerações sucessivas disposto em duas camadas: uma linear – A, filha de B, irmã de C, cunhada de D, mulher de X e, dizem, amante de Y… – tão ao gosto das longas conversas à soleira da porta ou à lareira, na província invernosa; outra constante, recorrente e obsessiva da presença de figuras–chave essenciais para a decifração da matéria de que é feita a história.
Partindo de um facto, a estadia de Sissi na Madeira, de uma semelhança física entre esta e Rosalina, a heroína, e de um desaparecimento na falésia, Agustina desenvolve um bordado a que não falta a má-língua, o diz que diz, a insinuação, a pesquisa histórica e a sentença filosófica e pragmática da narradora. Tudo em doses contadas e ciosamente administradas para que não se perca o fio à meada.
Para mim, (não) sei bem porquê, fixei a minha atenção em duas personagens: Rosalina e João de Barros (não confundir com o historiador quinhentista, embora a escolha do nome não tenha sido inocente). A primeira porque me remete para um dos livros que mais gostei de ler, Ópera dos Mortos, de Autran Dourado, cuja protagonista tem o mesmo nome; o segundo por ser um professor de Matemática com um percurso de vida que não deixa de me impressionar.
E por falar em professores…
foto: Castanhas, é tempo delas.
Ps. Abro um novo separador para falar de livros, até que a voz me doa.
Olá Clarinda,
ResponderEliminarque bela forma de apresentar um livro, de sobre ele discorrer um ensaio límpido, desvelando as personagens através das significações pouco inocentes que tu claramente descortinas. Gosto desse teu jeito, consegues despertar-nos para a leitura de Agustina que, muitas das vezes, é difícil de entrada. Hei-de voltar a ela, em vez de passar dias num dilema: "que livro devo escolher para ler?"
Beijos do Inverno temperado da ilha :)
Agustina é demolidora de conceitos e preconceitos da sociedade portuguesa. Revela o ser humano nos instintos, nos desejos e nos fracassos. Apesar de tratar do mundo dos ricos, não deixa de evidenciar as misérias íntimas. É certo que é também monótona e dispersa, mas está lá tudo, sem dúvida.
ResponderEliminarBeijinhos