
Na terra dos desejos os artistas do pequeno circo aguardam. Trouxeram os címbalos, o atabale e a corneta e sabem que ainda não são horas de começar. Um sorriso de circunstância assinala a distância entre mim e eles. Enquanto sorrirem posso ignorá-los e deter-me apenas na luz que queima as mãos se as exponho à verdade. Sei que preciso delas e preciso também da verdade para inverter o avanço do deserto.
Vivo num espaço obscurecido de cujas paredes escorrem palavras. São estas as mais frágeis e desamparadas ainda que seja forte o traço e pareça clara a mensagem. Depois de tanto as remexer, como marie curie com o elemento químico da radioactividade, não sei se cheguei à verdade e se as mãos estão intactas e podem ainda desenhar uma carícia. Vejo-as projectadas na parede de tal maneira que me parece possível ter conseguido atingir a verdade e manter as mãos.
Movo o polegar à espera de um reflexo imediato, uma mudança de forma. Reato o fio da infância e vejo os pássaros que o tio passeava na parede em sombras de mãos, antes que a noite entrasse definitivamente no quarto. Aguardo que se presentifiquem agora por força do meu desejo. Aguardo. Um ponto brilha longe dentro de mim. Os intrumentos deram sinal de vida. Já nada me separa dos artistas.
imagem: serralves em festa, 2008
Nada te separa deles, antes distancias-te deles em direcção à arte absoluta :)
ResponderEliminarGosto de pormenores como este: "Um sorriso de circunstância assinala a distância entre mim e eles". É simples e lindo.
Beijos
Duarte,
ResponderEliminarvamos tentando sempre e cada vez melhor.
Beijinhos