Devia ter dito não, não quero este armário, mas não disse. Já de nada adianta gritar seja o que for, ninguém me ouvirá. Todos partiram com a festa deixando a relva pisada e os arbustos beliscados na geometria das folhas. O jardim silenciou no sossego da boa acção cumprida, saturado de sons estranhos a si.
Nesta noite mais curta do ano, ou quase mais, a festa mudou-se para a beira do rio e desapareceram os armários, cómodas e mesinhas-de-cabeceira que tinham estado espalhados à volta do museu e que serviram de cenário para brevíssimos sketches dos jovens mimos que entretinham a tarde quente, num inesperado e instigante desequilíbrio da harmonia primordial entre a casa, o jardim, o bosque e o museu.
Quando me deram o armário pensei que fosse um truque para me obrigarem a representar um pequeno papel, por isso, não me importei de me ver ao espelho e até aproveitei para retocar o baton. Rapidamente percebi que ninguém o iria querer de volta e que seria eu a ter de inventar-lhe um destino. Foi assim que abri as portas para me certificar de que nada existia lá dentro que pudesse torná-lo mais pesado, retirei os parafusos e as dobradiças, desmontei as partes com energia, audácia e paciência, empilhei-as no centro de uma pequena clareira no bosque e agora, enquanto lá em baixo o rio freme engalanado de fogo de artifício, os vultos de avalon dançam à volta da fogueira que ateei neste recanto mágico da cidade.
imagem: serralves em festa, 2008
Sem comentários:
Enviar um comentário