lei de lavoisier *

* a Maria Gabriela Llansol
Não posso acrescentar no meu currículo que a conheci, que partilhei livros e amigos, conferências e viagens. Não consigo tratá-la pelo primeiro nome sem sentir que invadi propriedade alheia, que ocupei a cadeira da academia de letras em furtivos e ousados segundos. Não me atrevo a vê-la na língua que me cega e onde dito os sentidos e guardo objectos com nomes de árvores silentes ou sonoras, frágeis ou avassaladoras, na paisagem que cada página pronuncia.
Devo, para que o tempo se cumpra, guardar as palavras na proporção do meu ser, deixar que elas criem raízes, floresçam e dêem fruto sem que a nomeie ou que ignore o que ela fez por mim, por sebastião personagem sem nevoeiro mas com um dom, efectivamente morto em alcácer quibir. Devo aguardar que apareça nas ameias do castelo um ponto minusculamente reconhecível, como se reconhece alguém que se ama no meio de uma multidão, e deixar-me guiar pelo perfume da sua voz selvagem ou serena, atributos de uma poesia virilmente conseguida. Enquanto, no terreiro, os olhares vorazes comem os restos do corpo que a santa inquisição purificou, devo sentar-me junto ao rio observando a limpidez da água e regressar à realidade lentamente para que nada se perca ainda que tudo se transforme.
imagem: serralves em festa, 2008

* a Maria Gabriela Llansol
Não posso acrescentar no meu currículo que a conheci, que partilhei livros e amigos, conferências e viagens. Não consigo tratá-la pelo primeiro nome sem sentir que invadi propriedade alheia, que ocupei a cadeira da academia de letras em furtivos e ousados segundos. Não me atrevo a vê-la na língua que me cega e onde dito os sentidos e guardo objectos com nomes de árvores silentes ou sonoras, frágeis ou avassaladoras, na paisagem que cada página pronuncia.
Devo, para que o tempo se cumpra, guardar as palavras na proporção do meu ser, deixar que elas criem raízes, floresçam e dêem fruto sem que a nomeie ou que ignore o que ela fez por mim, por sebastião personagem sem nevoeiro mas com um dom, efectivamente morto em alcácer quibir. Devo aguardar que apareça nas ameias do castelo um ponto minusculamente reconhecível, como se reconhece alguém que se ama no meio de uma multidão, e deixar-me guiar pelo perfume da sua voz selvagem ou serena, atributos de uma poesia virilmente conseguida. Enquanto, no terreiro, os olhares vorazes comem os restos do corpo que a santa inquisição purificou, devo sentar-me junto ao rio observando a limpidez da água e regressar à realidade lentamente para que nada se perca ainda que tudo se transforme.
imagem: serralves em festa, 2008
Maria Gabriela Llansol, viverá em nós através da vasta obra, um legado de palavras, que nos transmitem toda a essência da sua vida.
ResponderEliminarGrata pela partilha. Gostei muito de a ler.
Um abraço ;)
Obrigada pelas suas palavras, menina marota.
ResponderEliminarClarinda,
ResponderEliminarÉ, não apenas arrepiante o que escreveste, mas de uma sensibilidade invulgar, é poesia e sentimento que se enleiam e caminham. É admirável o que escreves, eu estarreço sem palavras, deixo que a ditosa sorte de te ler, me permita desfrutar das tuas palavras. Eu não conheço Maria Gabriela Lansoll, mas creio que não deverão existir homenagens tão belas.
Abraço
Olá Duarte,
ResponderEliminarQue te hei-de dizer? Agradecer-te o carinho das tuas palavras.
Um dia vais conhecer esta escritora, pode ser que gostes.
Beijinhos
há um blogue denominado, espaço Llansol, devias conhecê-lo, é de João Barrento, um amigo da escritora que, com outros, trata do seu espólio para futuras edições.
ResponderEliminarbjs.
Olá moriana,
ResponderEliminarSim conheço o blogue. Mas sabes bem que o que aprecio mesmo são reminiscências de livros, de pessoas e de momentos.
Beijinhos