quarta-feira, 9 de julho de 2008

o desejo e o prazer
encontraram-se por acaso num lugar qualquer, numa hora incerta sujeita a uma vaga tonalidade do dia, mas não se reconheceram. Olharam-se descuidadamente como quem vê uma pessoa vulgar, um objecto banal, uma paisagem ordinária e nenhum deles sentiu um aperto no coração, um raio a penetrar a carne ou a voz a fraquejar. É certo que sendo do mesmo sexo, e com toda a experiência que as culturas milenares lhes transmitiram, não era de esperar que caíssem nos braços um do outro assim aos olhos e na boca do mundo, no entanto, nada se moveu naquele momento, apenas um estranhamento subtil e inquietante se apoderou de cada um.
O desejo é velho e magro. Calcorreia o mundo como um peregrino a que nenhum templo satisfaz. Por vezes renasce, as rugas desaparecem, o corpo endireita-se e tenta agarrar um pôr-do-sol que a noite engole deixando-o no ponto inicial da antiquíssima viagem. O prazer é jovem e de boas carnes. Um modelo perfeito para o culto. Como não se pode expor aos elementos do tempo vive numa campânula de vidro que se estilhaça continuamente em mil pedacinhos momentâneos e multicoloridos.
O desejo persegue o prazer e o prazer sabe que sem o desejo morrerá rapidamente, por isso abandona a campânula furtivamente e disfarça-se de pedinte. Cada um idealizou o encontro com o outro. Não esperavam um encontro assim ao acaso, sem ambiente, sem maquilhagem, sem chama, num lugar qualquer, a uma hora incerta. Ambos experimentaram a sensação de que por inexplicáveis momentos se viram a si mesmos, mas estavam convencidos de que não era a si mesmos que procuravam e seguiram o caminho sem olhar para trás.

2 comentários:

  1. então, separaram-se? e existem, separadamente?

    ;)
    bjs.

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  2. Bem, aqui nesta história para crianças separam-se. Dizem que o desejo é a ausência de prazer e o prazer é a ausÊncia de desejo. Mas é muito mais giro vê-los juntos.Sem dúvida.

    beijinhos

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